segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Visão Subnormal: Capacidade Reduzida


 Pessoas com cerca de 30% ou menos de visão no melhor olho apresentam o problema.

 A visão subnormal, também conhecida como baixa visão, é um comprometimento da função visual que impossibilita a pessoa ter uma visão clara para realização de suas atividades diárias. A baixa visão gera inúmeros transtornos e constrangimentos, e a falta de conhecimento da população em geral acaba por confundir o portador da baixa visão com a cegueira. Segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Visão Subnormal, em média, 70% a 80% de crianças diagnosticadas como cegas, na verdade, possuem certa capacidade visual.
 Mas a visão subnormal não atinge somente crianças. Adultos podem desenvolver baixa visão ao longo da vida. No entanto, quem apresenta baixa visão não pode ser considerado cego, já que possui visão, ainda que diminuída. Várias doenças estão relacionadas à baixa visão, e o tratamento destas doenças de base são fundamentais para melhor qualidade de visão.
 A pessoa com baixa visão deve saber que existe no mercado uma série de equipamentos voltados à adaptação e que permitem condições melhores de vida, além de certos cuidados e procedimentos que podem auxiliar essas pessoas na ressocialização, melhorando sua qualidade de vida e facilitando a execução de suas atividades diárias.
 Para Eliana Cunha Lima, ortoptista - especialista em deficiência visual - e coordenadora dos Programas de
Educação Especial e Clínica de Visão Subnormal da Fundação Dorina Nowill para Cegos, a visão subnormal
e a baixa visão são sinônimos e, por definição, são uma anomalia de pessoas que apresentam cerca de 30% ou menos de visão no melhor olho após todos os procedimentos clínicos, terapêuticos, e uso de óculos convencionais. Segundo ela, essa perda da visão pode ser classificada em  moderada, grave ou profunda.
 O médico oftalmologista Alexandre Costa Lima Azevedo, atual presidente da Sociedade Brasileira de Visão Subnormal do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, esclarece que muitas doenças podem ocasionar o quadro de visão subnormal. “Em geral, as doenças que causam visão subnormal, até o momento, não têm
cura, porém há tratamentos clínicos e medicamentosos que podem proporcionar estabilidade do quadro,
cabendo ao oftalmologista avaliar e escolher os procedimentos mais adequados.” “Em nosso país, as doenças mais comuns responsáveis pelo desenvolvimento da baixa visão na infância são: catarata congênita, glaucoma congênito, retinopatia da prematuridade e toxoplasmose ocular congênita. 
 Na idade adulta, outras tantas, como retinopatia diabética, glaucoma, retinose pigmentar e degeneração macular relacionada à idade”, diz Eliana Cunha Lima. 
 As pessoas com baixa visão enfrentam inúmeros problemas: “Estas pessoas enxergam de forma diferente nas diversas distâncias, seja de perto, à meia distância ou de longe. Sua percepção visual também varia conforme
a doença, o nível de perda visual e as condições de iluminação do ambiente. Isso traz problemas tanto nas execuções de suas atividades, como também na compreensão por parte das pessoas que convivem com elas”, explica a ortoptista.
 Para ilustrar melhor as peculiaridades desse tipo de transtorno, ela acrescenta: “Os doentes enxergam a lousa, mas não o que está escrito; veem as pessoas, porém não reconhecem sua fisionomia; em geral, conseguem ler somente as manchetes dos jornais, mas não as notícias. Essas situações geram grande constrangimento e dúvidas na família, na escola, no trabalho e nos ambientes sociais que frequentam”, completa a especialista.

Equipamentos úteis

Para amenizar essa situação, existem hoje vários produtos desenvolvidos para adaptar as condições e aproveitar o residual visual que as pessoas com baixa visão possuem, voltados à ampliação das imagens e melhor eficiência visual. Para perto, existem óculos esferoprismáticos, lupas manuais (de apoio e iluminadas)
e lupas de pescoço, entre outros. “Já para longe, telelupas de aumentos variados (mais utilizados para leitura de lousa, letreiros de ônibus e placas de rua); Max TV para assistir à televisão etc.”, relata a profissional. 
 Há também recursos eletrônicos como o chamado cctv e lupas eletrônicas, livros digitais, softwares e livros falados. Em São Paulo, esses produtos são encontrados em impor tadoras, ót icas especializadas e instituições que atendem pessoas com deficiência visual, completa.
 Os médicos reconhecem que a tecnologia vem contribuindo cada vez mais na reabilitação das pessoas com deficiência visual. Existem lupas eletrônicas que são amplamente utilizadas pr incipalmente pelas pessoas com baixa visão grave e profunda. É importante informar que o uso da visão residual não é prejudicial. Muito ao contrário, a utilização da visão proporciona melhor desempenho e eficiência da visão. E mais: a participação e a compreensão da família são fundamentais no processo de desenvolvimento das pessoas com deficiência visual e no resgate de sua autoestima.

Dicas para melhorar a visão subnormal:

 Para aperfeiçoar o resíduo visual das pessoas com baixa visão, nos diferentes ambientes, a ortoptista
Eliana Cunha Lima dá várias dicas. Veja abaixo:
1. Além da ampliação das imagens obtidas com os recursos ópticos e tecnológicos, é fundamental uma iluminação adequada, aumento de contraste, como, por exemplo, louças com cores fortes sobre toalhas claras ou vice-versa.
2. Aproximar os olhos do material de leitura e escrita.
3. Evitar superfícies muito polidas e brilhantes.
4. Para leitura e escrita utilizar lápis 6B e 4B, ou caneta hidrográfica preta, cadernos com pautas escurecidas e mais largas.
5. Sempre que possível , ampliar o tamanho das letras.
6. Em todas as idades, apoiar o interesse e a habilidade da pessoa com baixa visão a executar atividades e tarefas do cotidiano.

Por: Jeferson Mattos

Fonte: Revista + SAÚDE  | Ano 2  | N°6  | Abri, Maio, Junho 2011

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Crônica: VULTO

        

              Quase despida, começou a dançar. José, quase hipnotizado, começou a sonhar...



 No dia em que ela saiu, José sentiu um pouco de alívio. Há algum tempo percebera que Efigênia dava mostras de não estar gostando da vida em comum. Na idade em que estavam, nem pensavam em discutir a relação, como dizem nas novelas. Cada um para o seu lado, dissera Fi, como a chamava carinhosamente.   Tudo bem, respondeu resmungando.
 Na varanda, bebendo vinho e com o velho cachorro aos seus pés, José ficou olhando o infinito, que nada
mais era do que a janela do apartamento em frente. – O que é mesmo que estou fazendo aqui? Não temos
mais nada em comum. Amanhã, quando Fi voltar da sua vigésima viagem, vou combinar uma saída honrosa para nós dois. E continuou bebendo.
 A noite desceu rapidamente. No apartamento em frente, as luzes se acenderam por trás das cortinas desbotadas. Um vulto de mulher passou lentamente como num filme de Almodóvar. Em movimentos cadenciados, uma mulher tirou a blusa e a jogou no chão. Fez com a saia a mesma coisa, a diferença é que foi se contorcendo até que a saia caísse.

 Quase despida, começou a dançar. José, quase hipnotizado, começou a sonhar. Em seus sonhos, não quis ser partner nos braços daquele vulto, preferiu abrir as gavetas do tempo e questionar o passado. Desiludido,
perguntava a si mesmo onde ficou a magia daqueles momentos que tivera com sua mulher.
 Tempos aqueles em que tudo tinha uma conotação especial, bastava ser parte integrante de seu pequeno universo particular. Houve tempos em que discutia com os amigos que não acreditavam que a felicidade tem cor, a saudade tem aromas e que a música também causa dor. Cansado, não deu mais importância para seus saudosismos, embora sentisse na alma cada reflexo luminoso do sorriso de sua amada, sentia até hoje o cheiro especial da festa em que a conheceu e chorava cada minuto de saudade dos momentos mais felizes de sua vida.

 Mais um gole de vinho. O vulto de mulher já dança há horas. José foi longe e sequer sabe descrever a performance da dançarina. Só questiona e imagina: que vida bela ali tão perto mora! E aqui, o que se vive? O passado já não importa, o presente não existe e o futuro chegará a nós, mas nós não estaremos nele, seremos meros passageiros de malas e destinos vazios.
 Ouve um barulho. Por um minuto pensa que Fi estivesse de volta e que pudessem resgatar cada segundo
esquecido e maltratado pela indiferença. Mas que nada. O barulho que interrompe seu momento não passava de um vento que tocou forte a cortina, fazendo despedaçar o porta-retrato que eternizava a união de José e sua eterna amada. Diante daquela situação, José ainda pensa em juntar os estilhaços no chão, porém, volta ao seu canto de reflexão e, decidido, se justifica para as decisões que pretende tomar.
 Nada acontece por acaso. O que se quebra, mesmo que colado novamente, não terá inteireza, haverá sempre fissuras que se deixarão contaminar. A música ainda toca, mas o vulto de mulher já não dança mais. José não mais imagina que a felicidade mora ao lado. O vento da noite já sopra mais frio, porém José não tem nem hora, nem por que se apressar para entrar. Amanhã será tudo igual, o sol irá nascer mesmo sem
sua permissão.
 Tudo irá caminhar, e noite novamente chegará. Antes que isto aconteça, José fecha os olhos e adormece.

Paulo Castelo Branco

Fonte: Revista +SAÚDE  |  Ano 2 | N° 6 |  Abril, Maio, Junho 2011

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Diminuindo o passivo das empresas


   No nosso país, pode existir a lei, mas, se não for fiscalizada, ela “não pega”.

 A confecção do PCMSO e do PPRA já deveria ser algo corriqueiro, uma vez que a lei obriga a que todas as “empresas públicas e privadas, órgãos públicos de administração direta e indireta, bem como órgãos dos poderes legislativo e judiciário, que possuam empregados regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho – CLT” tenham nessa lei observância obrigatória. Por que vemos crescer a procura pela confecção de PPRA, PCMSO, PPP apenas de 10 anos para cá, se a Lei 6.514, que regulamenta esses documentos, completa 43 anos no próximo dia 22?

 No nosso país, pode existir a lei, mas, se não for fiscalizada, ela “não pega”. “A Lei 6.514 está pegando!”
Efetivamente, o que temos visto, nesses últimos anos, é crescer a nossa demanda por esses documentos.   Entre o final de 2008 e metade de 2010, a Medicina do Trabalho cresceu 100%. Estamos com uma lista de espera de mais de 30 PCMSO aguardando para serem confeccionados! Por quê? Será porque a lei está sendo fiscalizada só agora? Será que os “rigores da lei” estão sendo aplicados em todas as micro, médias e macroempresas? Ou será que os empresários entraram num consenso para cumpri-la? Ou a DRT está com funcionários sobrando para fiscalizar tudo isso? Entendo que nenhum desses fatores isolados responde às
perguntas. Uma associação de todos, talvez.
 Mas o mais importante: os empresários deram-se conta que fazer um PPRA e um PCMSO poupa dores de cabeça futuras, pois diminui o número de problemas com a justiça do trabalho. Principiando que o juiz vê
diferente o empresário que já comparece à audiência com os documentos exigidos e atualizados. Encerrando que um PPRA e um PCMSO de qualidade e a guarda dos documentos adequada respondem e, quase sempre, isentam de culpa a maioria de quesitos periciais. Isso sem grande estresse, sem recorrer a profissionais caros e estratégias duvidosas.
 A resposta é simples. Diminuição do passivo da empresa! A verdade é que os empresários estão descobrindo que o PCMSO e o PPRA diminuem, e muito, o passivo da empresa. Tudo absolutamente dentro da Lei. Tudo muito claro, objetivo, e com preços razoáveis.

Dra. Maria Borges - CREMERS 15212 - Médica do Trabalho

Fonte: Revista + SAÚDE |  Ano2  |  Nº 6  | Abril, Maio, Junho 2011

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Universidade para viver melhor

  
                Cursos para a 3a idade ensinam a ter vida mais ativa.



 O Brasil tem 190,7 milhões de pessoas, segundo o Censo do ano passado. Deste total, 11,16% têm idade acima de 60 anos. Isso representa um crescimento de quase 3% entre os idosos, somente na última década.        A expectativa de vida também cresceu: atualmente o brasileiro vive em média 73 anos e, entre as quase 20 milhões de pessoas classificadas como idosas, 23.760 já superam a marca dos 100 anos. Isso significa que, cada vez mais, a longevidade passa a ser algo comum entre os brasileiros e que também há mais chances de se envelhecer, e de modo cada vez mais saudável. Por outro lado, como disse o filósofo italiano Norberto Bobbio, “o velho sabe, por experiência, aquilo que os outros ainda não sabem e precisam aprender com ele, seja na esfera ética, seja nos costumes, seja nas técnicas de sobrevivência”. Esta frase coincide com a opinião do médico Wilson Jacob Filho, idealizador e coordenador da Universidade Aberta para o Envelhecimento Saudável (Unapes) e professor titular de Geriatria na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
 É essa imagem que ele quer que os idosos tenham, não só diante dos mais jovens, mas entre as pessoas
que estão envelhecendo e que – por medo, insegurança ou preconceito – se afastam da vida social à medida
que a idade avança. Por isso, Jacob Filho prefere investir nos pacientes mais velhos que procuram o serviço do Hospital das Clínicas da FMUSP (HCFMUSP), para que participem das atividades do programa iniciado em 2008 – oficinas de atividades físicas, dança e expressão corporal; alimentação saudável; informática, comunicação e dinâmicas de grupo – e se transformem em multiplicadores das técnicas para um envelhecimento ativo. “Nada melhor que uma pessoa mais velha para mostrar que é possível vencer as barreiras que o próprio idoso se impõe”, avalia o geriatra.

Efeitos positivos
 Segundo o médico do HCFMUSP, entre os efeitos positivos observados nos grupos, destacam-se a elevação da autoestima, a redução de peso e a melhora na disposição geral dos idosos, à medida que praticam atividades físicas e são estimulados para uma alimentação mais saudável.
 Outros pontos observados pelo serviço de geriatria são a redução das consultas médicas e de procura
ao pronto-socorro sem causas justificadas. “As pessoas mais ativas sentem menos necessidade de procurar o médico, ao mesmo tempo em que querem ficar com o físico em ordem porque percebem que o excesso de peso e o sedentarismo são fatores limitantes para o desenvolvimento de atividades sociais.” Os cursos da Unapes são semestrais e abertos a pessoas a partir dos 60 anos. As turmas têm início em março e agosto e as aulas teóricas acontecem todas as segundas, das 14 às 16 horas. Os outros dias da semana são ocupados pelas aulas práticas, sempre no mesmo horário. A equipe é multidisciplinar e inclui

nutricionistas, fisioterapeutas, professores de dança e de computação. São oferecidas 60 vagas para as atividades que acontecem no Espaço Propes (Programa de Promoção do Envelhecimento Saudável) do Serviço de Geriatria do Hospital das Clínicas.
 O projeto se apoia na política do envelhecimento ativo da Organização Mundial da Saúde (OMS), que prega o envolvimento do governo e da sociedade no desenvolvimento de programas que estimulem a participação em atividades sociais, físicas e culturais, como forma de manter uma vida saudável. Essa foi a abordagem da tese de doutorado “Educar para o autocuidado na terceira idade” – desenvolvida em conjunto por Kátia Lílian Sedrez e Alexandra Bordin, do curso de enfermagem da Universidade Regional Integrada de
Erechim, no Rio Grande do Sul. No trabalho, elas atestam que a maioria dos idosos apresenta algum tipo
de doença crônica, mas concluem que é possível continuar vivendo com qualidade, desde que essas doenças sejam controladas. “A ação educativa tem papel preponderante no aumento da expectativa e na qualidade de vida, assim como na manutenção da saúde do idoso”, garantem.

Modelo francês
 O modelo da universidade aberta à terceira idade foi criado nos anos 1970, na Universidade de Toulouse
(França), envolvendo cur sos de atualização cultural, orientações na área de saúde e algumas atividades
socioculturais. No Brasil, a Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas foi pioneira em cursos do gênero, a partir de 1991, antecipando-se à promulgação do Estatuto do Idoso, que estabeleceu que “O Poder Público apoiará a criação de universidade aberta para as pessoas idosas”.
 Hoje, o Estado de São Paulo conta com a Associação das Universidades Abertas à Terceira Idade, reunindo várias instituições superiores de ensino que adotam uma pedagogia para o envelhecimento com foco na manutenção da qualidade de vida. Na USP – a Universidade Aberta à Terceira Idade (UATI) completou 18 anos em 2010, envolvendo várias faculdades no campus da Cidade Universitária e da USP-Leste, somando quase 10 mil alunos em 2009, sem contar com o programa especial da Faculdade de Medicina.
 Na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), o programa teve início em 1999, na capital paulista. Atualmente se estende à Baixada Santista, com o objetivo de proporcionar mais qualidade de vida física e mental às pessoas com idade a partir de 50 anos. No Rio de Janeiro, a Universidade Veiga de Almeida mantém cursos para idosos, com destaque para Noções de Geriatria e Gerontologia. Todo aluno matriculado no curso tem acesso à orientação e ao atendimento odontológico, fisioterápico e fonoaudiológico.
 A mais recente iniciativa é da Universidade Federal de Alagoas, que inaugurou seu programa em fevereiro último, com a proposta de incentivar um estilo de vida ativo para as populações idosas, buscando alterar comportamentos que podem ser verdadeiros fatores de risco para a saúde.

Fonte: Revista + SAÚDE | Ano 2 Nº 6 | Abril - Maio - Junho 2011

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O Câncer da desinformação



        "É difícil permanecer imperador na presença do médico e mais difícil permanecer homem (...).”
 Marguerite Yourcenar, em Memórias de Adriano, relata o triste fim do Imperador, que se defronta com a condição humana, na doença. Este livro sempre me impressionou pela maneira crua com que retrata os últimos dias de um homem e o quanto, não importa as riquezas que acumulemos, somos todos iguais na doença. Em frente ao médico, estamos nus, despidos de quaisquer outras máscaras, enfrentando solitariamente o diagnóstico que informará o que acontece com nosso corpo. Inicio com este trecho porque
o diagnóstico de câncer sempre impressiona e soa como uma sentença de morte indefectível. Diante do câncer era difícil permanecer homem. Eu disse era porque inúmeros avanços na Medicina hoje permitem que um paciente com câncer não se sinta mais um solitário à espera do fim. Novos tratamentos e a importância da detecção da doença em uma fase inicial permitem tratamentos não mais tão agressivos e já com grandes chances de recuperação.
 Bem, se já sabemos que ser portador de câncer não é mais sinônimo do fim, sabemos também que os pacientes dessa enfermidade seguramente enfrentarão dias difíceis e despenderão recursos financeiros para restabelecer a saúde. A Medicina encontrou meios de amenizar, curar e extirpar. Encontrou mecanismos para garantir uma vida plena àqueles portadores dessa doença que já foi assustadora. De outro lado, a lei assegurou, ainda que tardiamente, alguns benefícios para que aqueles que apresentam a moléstia possam concentrar esforços única e exclusivamente no tratamento médico. Com efeito, recebo, em meu escritório, diariamente, pacientes portadores de câncer. Buscam o cumprimento mínimo de seus direitos, como, por
exemplo, garantia de medicamentos, de atendimento e internação. A maior parte deles, entretanto, infelizmente desconhece que tem direito a algumas isenções legais de impostos que, lamentavelmente, nem sempre são concedidas de forma automática.
 Assim, em época de ajustar as contas com o Leão, achei conveniente lembrar que os pacientes com câncer
que recebem rendimentos decorrentes de aposentadoria, pensão ou reforma, incluindo a complementação recebida de entidade privada – PGBL e a pensão alimentícia têm direito à isenção de Imposto de Renda em seus proventos, mesmo que a doença tenha se manifestado após a aposentadoria. E, importante, aqueles pacientes que ainda assim tiveram valores descontados a título de imposto de renda podem reaver estes valores, pagos indevidamente, abrangendo o período concernente aos cinco anos anteriores.
 Em suma, o que se busca é priorizar a saúde e a vida, desonerando o contribuinte enfermo, ainda que sua
enfermidade seja assintomática, ou seja, ainda que não apresente sintomas. Presume-se que, diante da batalha pela vida, o inativo deva ser poupado de descontos em seus rendimentos para que possa investir em saúde! E esta não é a única isenção de que um paciente com diagnóstico de câncer pode usufruir, havendo outros direitos, tais como isenção na contribuição previdenciária, liberação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, liberação do PIS/PASEP, isenção de ICMS, IPI e IPVA, estes sujeitos à análise de outras condições.
 Assim, concluo que atualmente somente um mal pode ser fatal ao enfermo: a desinformação. Dispondo a Medicina de métodos dia a dia mais eficazes no tratamento do câncer, é necessário que o paciente faça valer
a desigualdade a que faz jus, ou seja, que, recebendo do Estado tratamento diferenciado, seja colocado em condição de igualdade à de indivíduos que não são acometidos pela moléstia.

Fonte: Revista + SAÚDE | Ano 2 | N° 6 | Dra. MireleAlves Braz - OAB/RS 47.717

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Gravidez na adolescência

         

               Cerca de 60% das adolescentes são abandonadas pelos parceiros, durante a gestação.



No Brasil, a cada 19 minutos uma menina de 10 a 14 anos dá à luz. Entre 10 e 20 anos, o intervalo será de apenas um minuto. Já em São Paulo uma adolescente se torna mãe a cada cinco minutos. Em todo o País, 23% das mulheres engravidam nesse período da vida, porcentagem reduzida para 15% entre as paulistas. A estatística brasileira é igual às do Paraguai, Bolívia, Peru e Colômbia, enquanto São Paulo está mais próximo dos Estados Unidos (14%), Argentina e Chile (16%), mas ainda muito distante da Suíça, com 6%, ou Japão, com apenas 1%. No entanto, mesmo com índices ainda altos, São Paulo apresentou redução de 36% no número de adolescentes grávidas entre 1998 e 2008 – obtendo resultado ainda mais expressivo no caso da segunda gravidez, que diminuiu 47% na faixa etária pesquisada.
O decréscimo registrado em São Paulo é resultado de políticas públicas implantadas nos últimos 25 anos, que levam em conta outros aspectos além da saúde e sexualidade dos jovens, na avaliação de Albertina Duarte, obstetra e ginecologista que coordena o Programa Estadual de Atendimento Integral à Saúde do Adolescente desde a sua criação, em 1986.
O “divisor de águas”, segundo a médica, aconteceu após a pesquisa realizada entre 1990 e 1995, em que se constatou que a maioria dos jovens tem acesso à informação e aos métodos contraceptivos. “Mas a preocupação das meninas em agradar e o medo de falhar dos meninos se mostraram maiores que os cuidados para o sexo seguro.” “Isso mudou o enfoque da ‘informação’ para a ‘negociação do vínculo’ entre os casais, o que inclui um projeto de futuro e melhora da própria autoimagem do jovem”, lembra Albertina Duarte. “Quanto mais inseguro o adolescente, maior a sua dificuldade de assumir uma posição diante do parceiro, o que é igual em todas as classes sociais, mesmo nos países mais desenvolvidos, evidenciando o fracasso dos programas que se concentram apenas nas ações que incentivam o sexo seguro entre os adolescentes como forma de evitar a gravidez precoce.”
A pesquisa deu novo eixo para as abordagens sobre sexualidade e o programa passou a incluir o plano de vida dos adolescentes. Hoje muitos postos de saúde do Estado trabalham com “oficinas de sentimentos” que recebem nomes sugestivos, como “Fala de Menina/Fala de Menino”, “Papo da Hora” ou “Plantão de Emoções”. A implantação desses grupos prioriza as áreas de maior incidência de gravidez na adolescência e existe pelo menos um posto de referência em cada região do Estado. Outro atendimento, o serviço telefônico
gratuito, acessado por adolescentes do Brasil inteiro, é um bom indicativo do acerto da política adotada.
Para ganhar espaço no universo juvenil, a proposta é não deixar nenhum adolescente sem atendimento e uma forma de driblar as agendas geralmente lotadas dos médicos que trabalham nos postos de saúde foi incentivar
atividades paralelas nas chamadas “Casas dos Adolescentes”, que funcionam em pelo menos 20 locais na Capital, Grande São Paulo e algumas cidades do interior. Nas casas, equipes multidisciplinares interagem
com garotas e garotos, promovendo desde discussões sobre temas de interesse comum até aulas de dança,

culinária, ou mesmo o cultivo de hortas que contribuem para uma alimentação mais saudável, além de melhorar a relação com o grupo e ajudar o adolescente a ganhar mais confiança na convivência com seus parceiros. A estimativa é que são atendidos cerca de 200 jovens todos os dias nesses locais.



Fortalecendo laços


O fortalecimento de vínculos sociais é uma forma de superar a eventual ausência de uma estrutura familiar mais sólida, na opinião da psicóloga Célia Brandão, que durante anos participou do programa desenvolvido pelo Hospital Albert Einstein na favela de Paraisópolis, com o objetivo de realizar um trabalho preventivo de atendimento psicológico à gestante adolescente. “São muitos os motivos que tornam a adolescente mais vulnerável a uma gravidez, mas o principal deles é a falta de um projeto de vida e de perspectiva futura”, reconhece a profissional. “A adolescência é o momento de formação escolar e de preparação para o mundo do trabalho. A ocorrência de uma gravidez nessa fase, portanto, significa a interrupção, o atraso ou até mesmo o abandono desses processos.”
A psicóloga avalia que a gravidez inesperada nem sempre é indesejada, pois muitas vezes a adolescente sonha com o amor romântico e em formar uma nova família que transforme a imagem do próprio núcleo em que foi criada. Mas há pouca clareza entre as mulheres que engravidam precocemente sobre o papel de um
casal na criação de uma criança, o que se agrava pelo fato de que 60% são abandonadas pelos parceiros ainda durante a gestação. “O medo da dependência, da submissão, da perda de liberdade, dos diferentes tipos de abuso atribuídos à intimidade de uma relação estável, está presente em relatos de adolescentes grávidas”, observa Célia Brandão.
Outro aspecto destacado pela psicóloga é a falta de apoio para que a adolescente possa se desenvolver como mãe. “A reação das famílias à gravidez precoce oscila da agressão à apatia permissiva, até a conduta de superproteção – comportamentos que não contribuem para que o adolescente aprenda a lidar com a nova situação de forma equilibrada e responsável.” Independentemente da situação social e emocional, no entanto, as duas especialistas concordam que não se pode ignorar que a iniciação sexual cada vez mais precoce é uma das principais causas do aumento da gravidez na adolescência, o que torna fundamental o acesso à informação e a métodos anticoncepcionais. Um dos objetivos é reduzir o número de abortos, estimado em cerca de 5% entre as adolescentes. Em 2005, foram registrados 2.781 atendimentos de meninas com idades entre 10 e 14 anos, relacionados a complicações no pós-aborto no Brasil. Dos 15 aos 19 anos, foram contabilizados 46.504 atendimentos. O que é certo é que, embora ilegal, o aborto é praticado igualmente entre todas as classes sociais.

Fonte: Eli Serenza - Revista + SAÚDE /  Ano 2 / N°6

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Implantes na terceira idade


             PROCEDIMENTO COMEÇA A FORMAR UM NOVO NICHO NO MERCADO.


De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a qualidade de vida na terceira idade pode ser definida como a manutenção da saúde, em seu maior nível possível, em todos os aspectos da vida humana:
físico, social, psíquico e espiritual. Um dos fatores mais importantes na manutenção da saúde do idoso, do
ponto de vista físico, é o cuidado que se deve ter com a alimentação, já que o tipo certo de alimento ingerido
implica suprir o organismo com os nutrientes necessários ao seu bom funcionamento e à prevenção de vários
riscos e doenças, como a obesidade, nefropatias e diabetes.
A boca é a porta de entrada de nosso corpo para todos os alimentos, e uma mastigação eficiente colabora para que eles possam ser triturados e reduzidos ao tamanho ideal para serem deglutidos. Sem dentes, não
há como haver esse processo e, consequentemente, não é possível ingerir todos os tipos de alimentos, ocorrendo um comprometimento do sistema digestivo e da saúde sistêmica. Esta perda de elementos na boca
implica uma mudança radical no tipo de alimentação e, até mesmo, uma alteração comportamental. Pessoas da terceira idade, frequentemente, precisam de atenção redobrada no quesito saúde bucal, pois o envelhecimento, por si só, já traz uma série de problemas, como a redução do fluxo salivar, lesões da mucosa oral, gengivites, aumento e retração gengival, diminuição do suporte ósseo, cáries e, inclusive, câncer oral. Estudos realizados pela OMS indicam um aumento da população com idade acima de 65 anos e um decréscimo de idosos sem dentes, o que envolverá mais cuidados odontológicos.
No Brasil, assim como nos demais países latino-americanos, o processo de envelhecimento populacional é
rápido e intenso. Até 2025, teremos uma das maiores concentrações de idosos do mundo, com previsão de
14% do total da população. Um dos procedimentos odontológicos que, até então, julgava-se desnecessário para os idosos vem ganhando espaço e criando um novo nicho específico de mercado. Implantes dentários para a terceira idade têm assumido um importante papel, pois, além de otimizar a eficiência mastigatória, se comparados ao uso das próteses total e removível, também melhoram a autoestima. Auxiliam, ainda, o idoso a ter melhor qualidade de vida e a ingestão correta dos nutrientes que irão ajudar a manutenção da saúde a partir desta etapa de vida. Para o odontogeriatra Fernando Brunetti Montenegro, “é importante salientar que o tipo ideal de implante é aquele que o cirurgião-dentista consciencioso, levando em conta os fatores de saúde geral do paciente idoso, vier a indicar para cada caso em particular. Nem sempre o tipo mais eficiente é o possível e o profissional explicará o porquê”.

Saúde do paciente


O idoso que pretende colocar um implante dentário precisa ter a consciência de que não basta querer e pagar para ter. Há muitos problemas que limitam o uso do implante ou que, de certa forma, adiam o
procedimento até que a doença esteja controlada. Segundo Fernando Montenegro, a cirurgia de implante
não é indicada para quem tem osteoporose diagnosticada e ativa e para pacientes debilitados e anêmicos, por não suportarem bem o ato cirúrgico nem o pós-operatório. Outros, sem o controle efetivo das doenças,
como diabetes e hipertensão, precisam esperar a estabilização para que o procedimento seja realizado. Há ainda pacientes que não podem ingerir as medicações prescritas ou fazer uso dos anestésicos e aqueles que, cognitivamente, não cooperarão para o sucesso da cirurgia por causa da necessidade de higienização dos
implantes e da boca como um todo.
Em todos os casos em que há uma doença manifestada, é necessário o aval específico do médico assistente para que os implantes não causem nenhuma interferência no organismo. Para a especialista em Endodontia

e Odontogeriatria Nedi Soledade Miranda Rocha, os implantes também são contraindicados em pacientes com a Doença de Alzheimer, demências, Aids, câncer, algumas cardiopatias, infecções orais persistentes, grandes reabsorções ósseas e com o uso de alguns medicamentos, como os derivados de bifosfonatos. “Os implantes mais indicados em idosos são os os- Odontogeriatria seointegráveis rosqueáveis de titânio que, na maioria, possuem algum tipo de tratamento na superfície que irá agilizar ou favorecer a cicatrização óssea ao redor dele, promovendo a osseointegração”, explica Nedi Soledade, que também é vice-presidente da seção Rio de Janeiro da Associação Brasileira de Odontologia. Infelizmente os custos envolvidos com a técnica dos implantes ainda são elevados em comparação aos procedimentos usuais como as próteses tradicionais, totais e removíveis. Logo, um alcance social ainda é difícil de ser obtido rapidamente. Segundo Fernando Montenegro, para cada estrato social, há um tipo de prótese possível de ser realizada. “O importante é reabilitar os pacientes idosos o mais rápido possível, devolvendo a função mastigatória (que ajuda na recuperação de sua saúde geral) e estética, ao restabelecer a autoestima e a reinserção social”, conclui.

Luís Fernando Russiano

Fonte: Revista + SAÚDE  | Abril/Maio/Junho 2011| Ano 2  | Nº 6