terça-feira, 10 de abril de 2012

A velhice tem seus encantos, acreditem



    Todos conhecem os encantos da juventude: agilidade física e mental, desembaraço, disposição para tudo, excitação à flor da pele, sensibilidade intensa, o corpo em desenvolvimento. Ninguém é feio nessa fase da vida. O amor aflora, estimulando todos os nossos desejos. Tem-se fôlego para tudo, até para uma esticada após uma noite inteira de balada. Muitos se orgulham de continuar bebendo na manhã seguinte, como se isso fosse uma grande qualidade ou uma demonstração de boa saúde.
    Na juventude, como se sabe, todos estão aptos a trabalhar,
comemorar, disputar, correr, sem a menor demonstração de fraqueza. Em momentos festivos observamse claramente as demonstrações de juventude. Quando em grupo, então, os homens fazem questão de alardear sua virilidade e as mulheres não se cansam de exibir seus dotes físicos. No litoral, essas demonstrações são ainda mais nítidas, graças aos estímulos do calor, que possibilitam o uso de pouca roupa.
    As demonstrações de senilidade são mais discretas. Na maioria
dos casos, os velhos sequer se expõem, preferindo esconder-se por trás de um aparelho de televisão. Conhecemos os achaques da velhice: diabetes, hipertensão arterial, dores nas costas, enxaqueca, sinusite crônica, depressão – enorme quantidade de males ataca qualquer um depois dos 50, com maior ou menor intensidade. Não há quem não tenha um parente com pelo menos um desses males, ou com todos juntos.
    Raramente se escreve ou se fala dos encantos da velhice.
Admitamos que não se trata, de fato, de encantos, mas pelo menos de vantagens que a idade proporciona. O mais simples deles é andar de graça em ônibus, trem e metrô. Fura-se a fila no caixa dos bancos, dos correios e das loterias, bem como de qualquer Repartição de cujos serviços necessitam. É verdade que em alguns casos não adianta, como na fila dos Precatórios. Nesse caso, o Estado não está nem aí para a idade. Velhos morrem aos 80 ou 90 anos esperando o dinheiro a que teriam direito.
    Para os que ainda conseguem dirigir, há vagas para idosos e
deficientes. Embora nem sempre seja uma vantagem estacionar em tais vagas, que estão mais ou menos na mesma linha de proximidade do supermercado, da farmácia ou do restaurante. Já nos cinemas, o idoso tem desconto de 50% garantido. Nas farmácias oficiais há remédio gratuito, propiciado pelo governo federal.
     Quando o idoso viaja de avião, recebe tratamento especial, ao lado de crianças, portadores de deficiência, grávidas etc. São os primeiros a entrar, a receber as refeições e a sair do avião. Cortesia das empresas na disputa de mercado e também cumprimento das leis que determinam atendimento prioritário aos idosos.
    Não sei por que não se divulgam mais intensamente os benefícios
concedidos aos deficientes, que, em sua maioria, são também idosos. Eles podem adquirir veículos automáticos ou adaptados com desconto de IPI e ICMS, o que significa uma redução aproximada de 25% do valor de mercado. Basta o deficiente submeter-se a um exame e obter uma carteira de habilitação especial. Em seguida, requerer o benefício junto aos órgãos competentes. Não se divulga, ainda, que o deficiente pode livrar-se do rodízio, no caso de São Paulo, se necessita de tratamento permanente, como fisioterapia, hidroterapia, quimioterapia, transfusão de sangue etc. A lei relaciona as doenças e os tratamentos que proporcionam tais benefícios.
    Admitamos que desfrutar de tais regalias não chega a ser um encanto, mas pelo menos é um conforto a mais para quem já está debilitado e muitas vezes deprimido.
    O uso da bengala oferece certo glamour. Nas crianças, desperta
carinho e curiosidade. Em outras pessoas, mesmo desconhecidas, provoca solidariedade. Todos querem ajudar a atravessar a rua, a sentar, levantar, apanhar um objeto, entrar ou sair de um automóvel. Testemunhei essas demonstrações de carinho várias vezes, em diferentes locais e oportunidades. Aí, sim, senti os encantos da velhice.
    Uma recomendação para quem ainda não chegou à velhice: pensar
na possibilidade de manter um plano de saúde, o mais modesto que seja, para as horas de dificuldade. Não sendo possível, inscreva-se num programa de saúde pública (SUS). Questione sempre sua saúde, para seu bem-estar e de sua família.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Vaidade em xeque

Perda dos cabelos pode afetar o lado       
psicológico da mulher




    A alopecia, mais conhecida como calvície, é uma condição ou fenômeno de diminuição ou queda dos cabelos que atinge diretamente a vaidade de seus portadores. É mais comum acontecer no universo masculino, mas não é raro encontrarmos mulheres reclamando do problema.
    O cabelo é considerado a moldura do rosto e representa o objeto principal da vaidade das mulheres. Muitas delas passam horas em salões de beleza, tentando aprimorar a aparência ou aspecto desta “moldura”. Um lindo cabelo é motivo de elogios. A mulher atrai para si olhares que lhe dão segurança e geram emoções positivas tanto para ela como para quem olha.
    A perda dos cabelos, no entanto, pode afetar o lado psicológico da mulher, diminuindo a sua autoestima e tornando o problema ainda mais sério. A alopecia androgênica feminina ou calvície feminina acontece quando uma enzima chamada 5-alfa-redutase age sobre a testosterona, hormônio predominantemente masculino que a mulher tem em menores quantidades, gerando um subproduto chamado dihidrotestosterona – DHT.
    Esse hormônio andrógeno, quando se apresenta em níveis elevados no couro cabeludo, fixa-se nos folículos pilosos e dificulta a passagem de nutrientes vindos do sangue. Os cabelos, então, se afinam e lentamente diminuem seu crescimento, até desaparecerem completamente.
    De acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia de Restauração Capilar, o índice de perda de cabelos, em qualquer grau, é bastante representativo entre as mulheres na faixa entre 35 e 40 anos, atingindo até 25% delas. Acima dos quarenta, a situação piora, chegando a 50%. A dermatologista Patrícia Fagundes, do Hospital Nove de Julho, em São Paulo, explica que a calvície começa a despontar após a puberdade, mas, em alguns casos, se torna mais evidente após a menopausa. “Muita gente não sabe que ela existe e é bem menos frequente que a masculina. A mulher vai perdendo o cabelo e consegue visualizar mais facilmente o couro cabeludo. Há menos fios e eles ficam menores e mais finos.”
    Existem muitas causas que levam à calvície feminina. Além dos fatores hormonais, existe o eflúvio telógeno, que representa uma multiplicidade de fatores não genéticos como a calvície ocasionada por tração, normalmente encontrada em pessoas que costumam usar rabo de cavalo ou tranças que puxam o cabelo com muita força; em algum caso traumático como parto, grandes cirurgias, casos de envenenamento ou estresse. A deficiência nutricional, a pílula anticoncepcional e a seborreia também levam à queda dos cabelos. A menopausa e a gravidez são outros fatores hormonais que ocasionam o problema.
    O padrão estético da calvície feminina é diferente do observado na calvície do homem. Os cabelos começam a afinar e diminuir de tamanho de maneira difusa, no centro da cabeça. É muito raro, porém, encontrarmos uma mulher com calvície total, como acontece com os homens.
    Luiz Carlos Cuce, médico e professor de dermatologia do Hospital das Clínicas de São Paulo, diz que os casos de alopecia aumentaram nas mulheres em virtude das mudanças no estilo de vida, com a inserção profissional da mulher na sociedade, o que gerou aumento dos casos por problemas emocionais e de estresse. A pressão da mídia em cima da estética perfeita também funciona como um fator importante, segundo ele. “A mulher se vê obrigada a tornar-se um ‘palito’, muito magra, e muitas vezes, adota dietas não balanceadas, fazendo com que fique subnutrida e mais propensa à calvície”, acrescenta.
    O cuidado com a nutrição do cabelo deve ser feito com doses balanceadas de vitaminas e sais minerais. Os folículos pilosos do couro cabeludo nascerão mais saudáveis e fortes e evitarão que a quantidade de cabelos diminua ou que eles parem de crescer em bom ritmo. Por isso, é importante o consumo de alimentos como frutas e vegetais ricos em vitaminas A, B, C e E.
    É comum a mulher se assustar ao olhar para a escova de cabelo após se pentear ou para o ralo do box do chuveiro após o banho e perceber a quantidade de cabelo depositado nestes locais, mas é preciso saber que uma pessoa tem, em média, de 50 a 100 mil fios de cabelo. É normal uma queda diária de cerca de 50 a 100 fios, o que parece bastante, mas representa apenas 0,1% do total de fios. Esses cabelos são aqueles que estão em fase de repouso e representam 10% do total de cabelos. Os outros 90% são os cabelos que estão em crescimento (em média, 1 cm por mês) e atingirão a fase de repouso após um período que varia de dois a seis anos.
    É sempre bom evitar lavar os cabelos com água muito quente. O alisamento e a escovação exagerada podem também gerar cabelos com pontas duplas e frágeis. Procure um dermatologista quando a queda de cabelo persiste por mais de seis meses.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Beethoven contra o câncer



Usar a música em cultura de células tumorais 
trouxe resultados surpreendentes



    Um trabalho inovador desenvolvido por pesquisadores do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF), da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com a participação da Escola de Música Villa-Lobos, demonstra que a música pode servir como aliada no tratamento do câncer de mama. Testes realizados em culturas de células em laboratório mostraram que, quando células MCF-7 foram expostas à  5a Sinfonia de Beethoven e à composição  Atmosphères, de Gyorgy Ligeti, reduziram de tamanho ou morreram.
    A experiência iniciada há cerca de um ano analisa os efeitos de ondas sonoras audíveis em cultura de células e os resultados surpreenderam ao demonstrar que uma em cada cinco células expostas às composições mencionadas foi extinta. Agora os pesquisadores procuram uma forma de aumentar esse efeito. A ideia é que, no futuro, o grupo possa criar sequências sonoras específicas para ajudar no tratamento do câncer. 
    Estudos realizados anteriormente confirmaram que algumas músicas conseguem diminuir o número de ataques epiléticos e aumentar a capacidade de memória em pacientes com Mal de Alzheimer. A chamada musicoterapia vem sendo aplicada há décadas em doenças de origem neurológica ou em pacientes com transtornos psíquicos, além de ajudar na recuperação de traumas físicos. A ideia de usar a música em cultura de células, porém, é uma novidade.

Efeitos do Som

    A proposta do estudo partiu de uma ideia muito simples. “Se existe um efeito direto de sons audíveis nos seres vivos, poderemos estudá-lo em culturas de células, à semelhança do que já se faz com outros agentes químicos e físicos, como as ondas eletromagnéticas.” A explicação é da professora Marcia Alves Marques Capella, que coordena o trabalho. Ela esclarece, também, que a pesquisa é voltada para o efeito de ondas sonoras em diferentes culturas de células e não apenas nas tumorais. 
    “O nosso objetivo é estudar possíveis efeitos diretos do som (incluindo a música) em diferentes tipos de células, e o trabalho se apoia no fato de que não existe nenhuma razão para que uma célula qualquer do nosso organismo não responda ao som”, avalia. “Os efeitos do ultrassom e do infrassom já são estudados e conhecidos; no entanto, os estudos sobre os efeitos do som audível praticamente se restringem à emoção evocada pela música.” 
    Marcia afirma que ainda não tem uma explicação para o fato de ondas sonoras audíveis promoverem morte em alguns tipos de células tumorais. “Foi uma surpresa para nós, pois estávamos esperando efeitos mais sutis”, revela.
    A redução e morte de células MCF-7 (de câncer de mama humano) obtida pelos pesquisadores também foi testada em células de leucemia, mas o efeito não se repetiu. “No entanto, é possível que outras músicas tenham efeito em mais tipos de células”, acredita.
    Segundo a pesquisadora, já existem outras instituições realizando experiências com ondas sonoras contra o câncer. É o caso do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP), que recentemente começou a utilizar um aparelho de ultrassom para o tratamento de alguns tipos de tumores. Ela informa, também, que já foram publicados diversos artigos mostrando efeitos de frequências puras, dentro da faixa audível, em bactérias e em células animais e de vegetais superiores. “Segundo   diversos pesquisadores, é possível observar alteração no metabolismo e no ciclo celular. Mas até onde sabemos, o nosso estudo foi o primeiro a utilizar música em vez de frequências puras.”

Música como Terapia

    A graduação em Física ajudou muito, pois as ondas sonoras têm características mecânicas. Para iniciar o projeto, no entanto, Marcia Capella buscou também adquirir um conhecimento básico sobre teoria musical e, por isso, procurou a Escola de Música Villa-Lobos, onde estudou durante um ano. Foi lá que deu início à parceria com o professor de música que participou da pesquisa inédita.
    “Antes desse trabalho, toda minha experiência usando a música com fins terapêuticos foi como regente em coral com pessoas da terceira idade, não tendo necessariamente relação com doenças humanas”, revela Marcos de Castro Teixeira, formado pelo Conservatório Brasileiro de Música e professor de matérias teóricas e canto. Ele entrou para o universo da pesquisa científica depois de dar aula durante alguns meses para a professora Marcia Capella no curso básico de música. A oportunidade veio em forma de um pedido de orientação no projeto sobre os efeitos de ondas sonoras em células cancerígenas. 
    O professor usou seus conhecimentos na definição das músicas que fizeram parte da experiência e explica que uma delas é a composição já conhecida pelo “Efeito Mozart”, com benefícios comprovados para atenuar e diminuir crises de epilepsia, que recentemente mostrou-se eficiente também na redução da frequência cardíaca. Outros compositores sugeridos por Teixeira foram Beethoven, por ser um dos mais tocados no mundo inteiro, além de Ligeti, por se tratar de um autor contemporâneo que, no caso das células cancerígenas, superaram as composições de Mozart.
    Agora, a ideia da coordenadora do projeto é ampliar a nova linha que está sendo desenvolvida no laboratório para estudos em células não tumorais. Apesar da repercussão positiva que o trabalho obteve, no entanto, Marcia Capella mostra-se cautelosa com relação ao sucesso no meio científico. “Precisamos primeiro ampliar a pesquisa para termos uma ideia da abrangência de nossos achados”, conclui.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Faltou encaixe



A doença pode causar de alterações morfológicas a 
problemas articulares

Camila Pupo

    Sempre escutamos que o corpo humano é como uma máquina e que cada peça se completa para um ótimo funcionamento, não é mesmo? O problema é que nem sempre essas partes se unem com tanta perfeição e isso pode causar alguns danos. A oclusão dental é definida pela relação estabelecida entre os dentes da arcada superior (maxila) com os da arcada inferior (mandíbula), tanto na posição do fechamento bucal, quanto nos movimentos que ocorrem no ciclo mastigatório. Quando ocorre alguma alteração desses fatores, pode haver a maloclusão.
    Segundo Fernando da Cunha Ribeiro, cirurgião-dentista, mestre em Clínicas Odontológicas pela FOUSP – Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo, a maloclusão pode estar relacionada com diversos problemas, tais como: desconforto e distúrbios dos músculos mastigatórios, disfunções das articulações temporomandibulares, alterações no crescimento facial, problemas fonéticos e respiratórios, cefaleias e outros.
    “Em muitos casos, a maloclusão pode causar desde simples alterações morfológicas até grandes problemas articulares e funcionais. É frequentemente encontrada em pacientes com apertamento dentário (bruxismo), disfunções temporomandibulares, fraturas dentárias, sendo responsabilizada, muitas vezes, como principal agente etiológico (causador) desses problemas”, esclarece Luciana Arcas, cirurgiã-dentista e consultora da ABO – Associação Brasileira de Odontologia.
    “A maloclusão pode ser herdada ou adquirida. A primeira é aquela em que os desvios da normalidade decorrem de fatores preponderantemente genéticos, tais como o tamanho dos dentes, discrepâncias da base óssea maxilomandibular, presença de dentes supranumerários ou anadontias (falha na formação dos dentes) etc. Já a maloclusão adquirida é a que decorre dos fatores do desenvolvimento do indivíduo após o nascimento, como hábitos de chupar dedo ou chupeta, acidentes/traumas, problemas posturais etc.”, explica Ribeiro.
    De acordo com Luciana, o tratamento não deve ser feito mediante uma análise simplista de posicionamento dentário, mas é preciso uma avaliação da articulação temporomandibular, da musculatura da face, das bases ósseas do crânio, além da análise facial. Tudo isso é necessário, pois algumas maloclusões, quando corrigidas sem o diagnóstico correto, podem, por exemplo, deixar os dentes bem articulados, entretanto, ter como resultado uma face esteticamente sem harmonia.
    O tratamento das maloclusões pode ser preventivo, interceptativo ou curativo, como esclarece Ribeiro: “No tratamento preventivo são tomadas atitudes que visam eliminar os fatores que sabidamente são nocivos e estão relacionados ao desenvolvimento de maloclusões. Dentro deste segmento existem, por exemplo: a) os hábitos orais, como o uso exagerado ou prolongado das chupetas; b) os problemas funcionais, como a deglutição atípica e a respiração bucal; c) o controle das doenças bucais, como as cáries e a doença periodontal. No interceptativo são tomadas atitudes que buscam minimizar os danos já constatados, normalmente relacionados a problemas hereditários, que, se não forem interceptados, poderão levar a situações de maior gravidade ao longo processo de crescimento e desenvolvimento da criança. Já o tratamento curativo procura corrigir ou, ao menos, minimizar os desvios da normalidade, isto é, quando a maloclusão já está instalada”.
    Vale ressaltar que o ser humano possui uma capacidade de adaptação muito grande que o permite superar certas limitações; por isso, mesmo que uma oclusão não seja considerada ótima, não significa que ela pode causar danos ou problemas ao indivíduo, mas, justamente por esse motivo, é preciso um diagnóstico completo feito por um profissional.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Pele em erupção


Regiões com muitos pelos são alvo para 
manifestação dessa infecção provocada por bactérias



    Ela é sorrateira. E, quando menos se espera, a pele já está infectada, pois no folículo piloso, lugar onde nascem os pelos, formaram-se nódulos avermelhados e bem doloridos quando comprimidos. Estamos falando do temido furúnculo, problema provocado pela bactéria Staphylococcus aureus. Em alguns pacientes, apontam estudos, a S. aureus pode estar presente na pele e mucosa nasal. 
    “Furúnculo é uma infecção bacteriana da pele que se caracteriza pela presença de um ou mais nódulos  inflamatórios, ou seja, com vermelhidão, calor e dor. Com o passar do tempo eles ‘amolecem’ na parte central (flutuação), e surge sua abertura espontânea com saída de secreção purulenta”, explica a dermatologista Fátima Rabay, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia – Regional São Paulo (SBD-SP). 
    Segundo a médica, o furúnculo manifesta-se com mais frequência nos membros inferiores – coxas, virilha e nádegas –, e também aparece em qualquer lugar do corpo rico em pelos, com transpiração significativa e sujeita aos atritos – as axilas são exemplos.
    As pessoas mais propensas a ter furúnculo são homens após a puberdade, em virtude da quantidade de pelos, informa Adriana Cristina Caldas, de São José do Rio Preto (SP), especialista em dermatologia pela Sociedade Brasileira de Dermatologia e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica. “O furúnculo em si não é hereditário, porém a predisposição que algumas pessoas têm em adquirir essa infecção é que pode ser herdada”, completa a profissional.
    O diagnóstico do furúnculo baseia-se na análise clínica e, dependendo de cada caso, colhe-se cultura da secreção para identificação do micro-organismo causador. A sugestão médica é tomar cuidado com a manipulação e higiene dos nódulos, portanto, não vale espremer nem coçar os furúnculos. 
    “Como é causado por uma bactéria”, diz Adriana Caldas, “o fato de manipular as lesões pode facilitar que essa bactéria penetre em outro folículo, levando à formação de novos furúnculos”, reforça a dermatologista, acrescentando que, de uma pessoa para outra, também é possível uma contaminação, embora não seja tão fácil. “É importante que haja uma atenção especial para as crianças, pois essa transmissão pode ser mais eficaz”, pontua. 
    Outra complicação cutânea é a furunculose. Trata-se da recorrência de vários furúnculos repetidamente, sendo associada, entre inúmeros fatores, a problemas de defesa do organismo em impedir a infecção nos folículos.
    Antibióticos tópicos, compressas mornas e uso de sabonetes antissépticos são ferramentas empregadas para evitar a disseminação da bactéria na extensão cutânea. “O tratamento é feito com antibióticos orais ou injetáveis e drenagem cirúrgica, caso não ocorra sua saída espontaneamente”, indica Fátima.
    Mas há como prevenir esse incômodo? A chave está na assepsia. Estão na lista de recomendações as roupas limpas, incluindo toalhas, lençóis e travesseiros, e vestimentas não muito apertadas, que atrapalhem a respiração dos folículos, além de secar bem o corpo e as áreas de dobras da pele. “A prevenção é feita com boa higiene pessoal e com as roupas. Lavar bem as mãos quando manipular as lesões, aplicação de curativos fechados e antibióticos locais nos orifícios naturais, como no nariz e ânus”, finaliza a dermatologista Fátima Rabay.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Cérebro social




O volume dessa estrutura pode ter relação com a 
socialização do indivíduo
Neusa Pinheiro

    A amígdala cerebral faz parte de um grupo de estruturas que compõe o sistema límbico do cérebro e que inclui, além da própria amígdala,  o hipotálamo, o tálamo e o hipocampo, entre outras. O sistema é responsável pelo comportamento emocional, aprendizado e memória, e ainda da chamada vida vegetativa que abrange a digestão de alimentos, a circulação sanguínea e a excreção. É constituído de células chamadas de neurônios, que são especializadas e responsáveis em captar e transmitir os estímulos recebidos do ambiente para o corpo, através de uma rede neurotransmissora, formando os chamados impulsos nervosos.
    A amígdala é considerada a porta de entrada do sistema límbico. Ao ser estimulada, pode ocasionar algumas experiências de comportamento como raiva, medo, prazer e sexualidade. Também padroniza respostas comportamentais apropriadas para cada ocasião. Existem duas amígdalas, uma para cada hemisfério do cérebro.
    Recentemente, um estudo realizado em 58 adultos saudáveis, por Kevin Bickart e colaboradores, da Universidade de Boston, descobriu que o volume da amígdala tem correlação com o tamanho e a complexidade das redes sociais nos adultos, ou seja, quanto maior é o órgão, maior é a quantidade de amigos e parentes que convivem com o portador dele, embora não se tenha concluído se a amígdala cerebral cresceria em proporção ao número de amigos. 
    Os pesquisadores propuseram, no caso, que o volume da amígdala deve estar relacionado ao tamanho dos grupos sociais, em parte porque o tamanho de uma região do cérebro é um indicador da sua capacidade de processamento.
    “A amígdala medeia o processamento das informações relevantes socialmente e a expressão do comportamento emocional. No entanto, a percepção social e as demandas subsequentes são resultantes da atividade de uma rede neural, e não somente do desempenho funcional de estruturas cerebrais individuais”, diz a médica Roberta Monterazzo Cysneiros, pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).  
    A hipótese do “cérebro social”, expressão cunhada por Leslie Brothers em 1990, sugere que evolutivamente quem vive em maiores e mais complexos grupos sociais possuem regiões do cérebro maiores, com maior capacidade para realizar cálculos pertinentes. Este cérebro social define-se como uma complexa rede de áreas cerebrais ou rede neural, que nos permite reconhecer outros indivíduos, avaliar os seus estados mentais (por exemplo, suas intenções, disposições, desejos e crenças), compartilhar sua atenção e se posicionar no lugar do outro. “Esta ’ação’, denominada de percepção social, ocorre por meio de análise e interpretação de pistas biológicas, tais como expressões faciais, gestos, movimentos corporais e tipo e direção do olhar. A partir desta percepção surgem outras demandas, como tomada de decisão, planejamento de ações e estratégias, baseando-se em um sistema de recompensa, para permitir uma ação apropriada para cada situação ou circunstância, garantindo aos membros da espécie uma maior chance de adaptação e de sobrevivência em ambientes complexos”, prossegue a médica.

Distúrbios e desvios

    Lesões no sistema límbico, ou, mais especificamente, na amígdala cerebral, podem levar a alguns desvios de comportamento. Em experimentos, a sua destruição faz com que um animal se torne dócil, sem preferência sexual, descaracterizado afetivamente e, o que é potencialmente perigoso, indiferente às situações de risco. O estímulo da amígdala com impulsos elétricos provoca violenta agressividade. Nos seres humanos o indivíduo perde, com a lesão, a percepção do sentido afetivo vindo de uma informação exterior, como, por exemplo, a aproximação de um amigo. Ele percebe o que está vendo, identifica a pessoa, mas não tem noção se gosta ou não desta pessoa.
    Alguns distúrbios ou transtornos já foram relacionados às lesões da amígdala. Um estudo realizado pela equipe de Murray B. Stein, da Universidade da Califórnia, nos EUA, utilizou uma técnica chamada ressonância magnética funcional para medir a atividade cerebral em pacientes afetados pela TAS (Transtorno de Ansiedade Social) ou FS (Fobia Social) e em indivíduos não portadores do distúrbio.
    Várias fotografias com rostos foram mostradas aos voluntários. Os pesquisadores descobriram que, em relação aos voluntários que não apresentavam o distúrbio de ansiedade, os indivíduos com fobia social tiveram uma resposta hiperativa na amígdala quando viram rostos com expressões de raiva ou arrogância.
    Também já foram encontradas provas, por meio de estudos de neuroimagem (PET-Scan), que avalia a atividade cerebral através do metabolismo de glicose no cérebro, que os pacientes com o Transtorno Bipolar de Humor (antiga psicose maníaco-depressiva, que se caracteriza por períodos de depressão alternados com períodos de mania) possuem maior atividade na estrutura da amígdala cerebral.
    Enfim, pode-se questionar o fato de ser evidente que o cérebro controla o comportamento do indivíduo, e a amígdala, mais especificamente, as relações sociais e emoções. Mas o comportamento pode controlar o cérebro? Roberta Cysneiros responde: “Ao se analisar o contexto do ponto de vista individual, percebemos que nascemos com o potencial para desenvolver as habilidades sociais necessárias para atender às diferentes demandas que o convívio em sociedade exige. No entanto, devemos evitar a premissa imediatista de que os indivíduos já nascem dotados de uma rede neural apta para trafegar em redes sociais amplas e complexas e que, quanto mais desenvolvida ela for, maior e mais complexa será a rede social que iremos participar. Ao invés disso, as habilidades sociais são aprendidas no convívio em sociedade, esculpindo o cérebro, graças à plasticidade neural, e influenciando o indivíduo ao longo da vida”.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Visão distorcida



A doença atinge 1,6 milhão de brasileiros e a
 atenção é mais humanizada

Renata Bernardis

      Visões e vozes são alguns dos sintomas apresentados por pessoas que sofrem de esquizofrenia. Usualmente elas vivem também momentos de apatia e desordem de pensamento, com alterações de juízo, falsas ideias de perseguição e dificuldade em se relacionar. A esquizofrenia é uma doença com manifestações psíquicas cujos sinais e sintomas se dão na área do pensamento, percepção e emoções. Afeta cerca de 1% da população mundial e conta com, aproximadamente, 56 mil novos casos a cada ano no Brasil. No total, estima-se que exista cerca de 1,6 milhão de brasileiros com esquizofrenia, um dos transtornos mais graves na psiquiatria.

      Descrita pela primeira vez no fim do século XIX, a esquizofrenia ganhou esse nome do psiquiatra suíço Eugen Bleuler, como resultado da junção dos termos gregos  skizo (divisão) e phrenos (espírito), em virtude dos sintomas de dissociação que provoca no paciente. O curso da doença, que começa no final da adolescência ou início da idade adulta – geralmente, depois dos 15 anos e antes dos 30 – é sempre crônico. 
      De acordo com Rodrigo Bressan, psiquiatra e coordenador do Programa de Esquizofrenia (Proesq) – serviço psiquiátrico ambulatorial do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) que atende, atualmente, cerca de 300 pessoas –, o diagnóstico é estritamente clínico, pois não existem marcadores biológicos próprios para essa doença nem exames complementares específicos. Mas alerta: “Apesar de não existirem exames que a confirmem, não significa que eles sejam dispensáveis. Por meio deles, é possível descartar outros quadros, o que reforça o diagnóstico da esquizofrenia”, diz, ao explicar que a doença tem causa multifatorial. Ela tem base genética, fatores sociais, familiares e psicológicos. A interação destes fatores é determinante para  desencadear a doença, geralmente percebida em razão de um surto, pois os sintomas da esquizofrenia são, na maior parte das vezes, sutis. 
      “Desse primeiro surto até a primeira visita ao psiquiatra há, geralmente, um intervalo de mais de um ano”, relata Jorge Assis, vice-presidente da Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia (Abre), entidade criada em 2002 com o intuito de informar, combater o estigma, por meio de ações na mídia, lutar contra a falta de medicação, divulgar materiais educativos no site e desenvolver atividades educativas nas comunidades. “O primeiro atendimento psiquiátrico demora para acontecer, pois, na maioria das vezes, a família não aceita a doença e busca vários médicos na esperança de receber um diagnóstico diferente”, explica. A esquizofrenia é uma doença crônica que ainda não tem cura, mas é tratada com remédios que, segundo Assis, garantem bons resultados e menos efeitos colaterais. “A indústria farmacêutica tem evoluído muito, assim como o conhecimento médico acerca do cérebro.” 
      Os medicamentos antipsicóticos para tratar a esquizofrenia, surgidos nos anos 1950, evoluíram e estão cada vez mais específicos e seguros no controle dos sintomas da doença, também controlada por atendimentos clínicos frequentes. 
      No Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo o tratamento é multifatorial, com psicoterapia. Realizado em longo prazo, o tratamento é mantido mesmo fora dos momentos de crise com o intuito de garantir à pessoa com esquizofrenia uma vida estável. O professor Helio Elkis, que é coordenador do Programa de Esquizofrenia do Instituto de Psiquiatria (IPq), do HC, conta que os mais de 500 pacientes atendidos pela entidade são chamados de refratários, pois não respondem aos psicóticos de primeira e segunda geração e, por isso, são tratados com clozapina. “Cerca de 30% das pessoas com esquizofrenia não respondem aos psicóticos de primeira e segunda geração”, diz, ao relatar que a entidade poderia receber novas pessoas refratárias dessa grande parcela de pessoas com esquizofrenia se a rede pública conseguisse absorver os pacientes do HC que hoje apresentam quadro estável.
      Contudo, alguns medicamentos não estão disponíveis nas unidades básicas de saúde e nem sempre há disponibilidade para a realização de hemogramas, exame frequentemente realizado em pessoas tratadas com clozapina, medicamento que em dosagem errada pode causar deficiência de glóbulos brancos. 
      Para Assis, da Abre, o atendimento em saúde é deficitário de maneira geral em todo o Brasil e na saúde mental não é diferente. “Entre 10 pessoas com esquizofrenia, não é exagero afirmar que um é tratado. E, em caso de crise psicótica, a dificuldade aumenta, pois as internações são difíceis de serem conseguidas.”
      A boa informação é que as internações, que por muito tempo foram utilizadas de forma incorreta e abusiva, em hospitais psiquiátricos que apresentavam condições desumanas, mudaram em muitos locais. Os próprios Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que atendem pessoas com  transtornos mentais graves, como psicoses e neuroses, incluindo a esquizofrenia, garantem internações bem mais humanizadas. A reforma psiquiátrica, iniciada há cerca de vinte anos e formalizada pela Lei no 10.216/01, impulsionou a construção de um modelo mais humanizado de atenção integral na rede pública de saúde, que mudou o foco da hospitalização como centro ou única possibilidade de tratamento aos pacientes.
      De acordo com o Ministério da Saúde, que prevê investir 1,8 bilhão de reais na área de saúde mental em 2011, existem hoje 1.650 CAPS, presentes em todos os estados da federação.